"O capitalismo é a causa, a verdadeira causa da miséria, da desigualdade e da exclusão. [...] O mandato supremo do Cristo Redentor só será possível quando reinar o socialismo nestas terras e nestes mundos."
Duas décadas depois destas palavras do ex-presidente venezuelano Hugo Chávez (1954-2013), o chamado socialismo do século 21, impulsionado por ele na Venezuela, enfrenta o maior teste da sua história.
A inédita operação militar lançada pelos Estados Unidos contra o país sul-americano, no último dia 3 de janeiro, terminou com a captura do então presidente venezuelano Nicolás Maduro e da sua esposa, Cilia Flores.
Desde então, o modelo econômico defendido pelo ex-líder da revolução bolivariana sofreu acelerada metamorfose, impulsionada por reformas legais aprovadas às pressas pelo Parlamento controlado pelo chavismo e por outras medidas tomadas pelo Executivo.
Aqui estão três exemplos que demonstram como a economia da Venezuela parece estar deixando para trás um longo período que teve o Estado como sua principal influência.
1. O retorno aos mercados internacionais
No último dia 13 de maio, o governo interino da Venezuela anunciou o início de um processo "integral e ordenado" de reestruturação da sua dívida externa e da companhia estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA).
O objetivo da medida é "liberar o país da carga da dívida acumulada". Para isso, as autoridades esperam renegociar com seus credores os prazos de pagamento dos créditos em aberto desde 2017 e obter o perdão de dívidas.
A notícia surgiu menos de um mês depois que o governo da presidente em exercício Delcy Rodríguez anunciou o restabelecimento de relações com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, que os líderes chavistas repudiaram insistentemente ao longo dos anos.O FMI deveria se suicidar", afirmou Chávez em 2008. Ele culpava o organismo pela crise financeira internacional ocorrida naquele ano.
"Não me refiro aos senhores que o dirigem. Não, não, tomara que eles tenham vida longa, mas deveriam convocar uma sessão e declarar sua dissolução."
Nicolás Maduro se pronunciou em termos similares em 2025. Ele responsabilizou o FMI pelo "colapso dos países" e acusou de "traição" qualquer pessoa que pensasse em negociar com o organismo na Venezuela.
"Quem entregar nosso país ao FMI será um grande traidor e o povo teria o direito de ir às ruas outra vez", declarou Maduro.
Os mercados internacionais receberam com otimismo o anúncio da renegociação da dívida externa venezuelana.
Os títulos do país, cujo preço não chega a um dólar, subiram em mais de 2%, enquanto as ações da PDVSA aumentaram em até 4% depois do anúncio da notícia, segundo a agência Bloomberg.
Especialistas consultados pela BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) alertaram que este é apenas o primeiro passo de um longo processo que poderá culminar com o pleno regresso do país ao sistema financeiro internacional e, com isso, a possibilidade de ter novamente acesso a créditos e financiamentos.
"Estamos começando um processo de renegociação sem ter os números na mesa", destaca o economista venezuelano José Manuel Pente. "Não sabemos quanto, nem a quem devemos."
Professor do Instituto de Estudos Superiores de Administração da Venezuela (IESA) e da Universidade IE de Madri, na Espanha, Pente explica que não se sabe ao certo o montante da dívida com a China, nem se os números incluem os bilhões correspondentes a litígios internacionais que a Venezuela mantém pendentes com empresas como as petroleiras Exxon Mobil e ConocoPhillips.
"Em 1998, a dívida externa chegava a US$ 35 bilhões, mas agora é estimada entre US$ 170 e 190 bilhões", segundo ele.