3 exemplos de como presidente da Venezuela está desmantelando modelo econômico chavista

Delcy Rodríguez, ao lado do secretário da Energia dos Estados Unidos, Chris Wright Article Information Author,Juan Francisco Alonso Role,BBC News Mundo Published Há 7 horas Tempo de leitura: 8 min

bbc news brasil | 24/05/2026

3 exemplos de como presidente da Venezuela está desmantelando modelo econômico chavista

Delcy Rodríguez, ao lado do secretário da Energia dos Estados Unidos, Chris Wright (BBC NEWS BRASIL)

"O capitalismo é a causa, a verdadeira causa da miséria, da desigualdade e da exclusão. [...] O mandato supremo do Cristo Redentor só será possível quando reinar o socialismo nestas terras e nestes mundos."

Duas décadas depois destas palavras do ex-presidente venezuelano Hugo Chávez (1954-2013), o chamado socialismo do século 21, impulsionado por ele na Venezuela, enfrenta o maior teste da sua história.

A inédita operação militar lançada pelos Estados Unidos contra o país sul-americano, no último dia 3 de janeiro, terminou com a captura do então presidente venezuelano Nicolás Maduro e da sua esposa, Cilia Flores.

Desde então, o modelo econômico defendido pelo ex-líder da revolução bolivariana sofreu acelerada metamorfose, impulsionada por reformas legais aprovadas às pressas pelo Parlamento controlado pelo chavismo e por outras medidas tomadas pelo Executivo.

Aqui estão três exemplos que demonstram como a economia da Venezuela parece estar deixando para trás um longo período que teve o Estado como sua principal influência.

1. O retorno aos mercados internacionais

No último dia 13 de maio, o governo interino da Venezuela anunciou o início de um processo "integral e ordenado" de reestruturação da sua dívida externa e da companhia estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA).

O objetivo da medida é "liberar o país da carga da dívida acumulada". Para isso, as autoridades esperam renegociar com seus credores os prazos de pagamento dos créditos em aberto desde 2017 e obter o perdão de dívidas.

A notícia surgiu menos de um mês depois que o governo da presidente em exercício Delcy Rodríguez anunciou o restabelecimento de relações com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, que os líderes chavistas repudiaram insistentemente ao longo dos anos.O FMI deveria se suicidar", afirmou Chávez em 2008. Ele culpava o organismo pela crise financeira internacional ocorrida naquele ano.

"Não me refiro aos senhores que o dirigem. Não, não, tomara que eles tenham vida longa, mas deveriam convocar uma sessão e declarar sua dissolução."

Nicolás Maduro se pronunciou em termos similares em 2025. Ele responsabilizou o FMI pelo "colapso dos países" e acusou de "traição" qualquer pessoa que pensasse em negociar com o organismo na Venezuela.

"Quem entregar nosso país ao FMI será um grande traidor e o povo teria o direito de ir às ruas outra vez", declarou Maduro.

Os mercados internacionais receberam com otimismo o anúncio da renegociação da dívida externa venezuelana.

Os títulos do país, cujo preço não chega a um dólar, subiram em mais de 2%, enquanto as ações da PDVSA aumentaram em até 4% depois do anúncio da notícia, segundo a agência Bloomberg.

Especialistas consultados pela BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) alertaram que este é apenas o primeiro passo de um longo processo que poderá culminar com o pleno regresso do país ao sistema financeiro internacional e, com isso, a possibilidade de ter novamente acesso a créditos e financiamentos.

"Estamos começando um processo de renegociação sem ter os números na mesa", destaca o economista venezuelano José Manuel Pente. "Não sabemos quanto, nem a quem devemos."

Professor do Instituto de Estudos Superiores de Administração da Venezuela (IESA) e da Universidade IE de Madri, na Espanha, Pente explica que não se sabe ao certo o montante da dívida com a China, nem se os números incluem os bilhões correspondentes a litígios internacionais que a Venezuela mantém pendentes com empresas como as petroleiras Exxon Mobil e ConocoPhillips.

"Em 1998, a dívida externa chegava a US$ 35 bilhões, mas agora é estimada entre US$ 170 e 190 bilhões", segundo ele.